Criação de Búfalo Ameaçada na Verde Para Sempre

Claudio Wilson Barbosa
Serviço Cerne de Apoio à Produção Familiar na Amazônia

Durante mais de meio século, famílias ribeirinhas de Porto de Moz aprimoraram sistemas de manejo de criação de bubalinos nos campos naturais de várzeas entre os Rios Amazonas e Xingu. Os sistemas se baseiam na capacidade de adaptação dos animais e na a inteligência e criatividade dos ribeirinhos na construção de marombas (currais suspensos) para o período das cheias, cercas para o manejo do gado, transporte dos animais de uma área para outra em pequenas embarcações ou a nado. A criação garante que a maioria das famílias tenha sua renda ampliada com a produção do queijo de búfalo e a venda de animais para abate.

No entanto, a partir de 1989, com o nível das cheias cada vez maior, os criadores passaram a sofrer perdas acentuadas de animais e da produção de queijo.  Apesar da alta capacidade de adaptação dos animais a ambientes alagados, as enchentes repentinas dos últimos anos provocaram a morte da pastagem natural por não ter havido tempo para a vegetação acompanhar a subida das águas como habitualmente. Ficando submerso por vários dias, o capim acaba apodrecendo e morrendo, fazendo com que os campos pareçam rios.

Esse fator tem obrigado cada vez mais os criadores com acesso a áreas de terra firme, a estabelecerem pequenas áreas de pastagem cultivadas para assegurar alimento para os animais menores durante os picos das cheias. Outros que não têm acesso à terra firme asseguram o alimento dos animais menores com corte de capim; mesmo que essa prática apresente suas limitações, parte dos animais consegue sobreviver. As duas alternativas demandam esforço e investimento extra das famílias.

Além do fator enchente, a partir de 20004, com a criação da Reserva Extrativista Verde para Sempre (Resex), foi suspenso o acesso às linhas de financiamento da agricultura familiar. Não se sabe concretamente por quem e por que foi suspenso o financiamento para as atividades produtivas na Resex como um todo. Foram fechadas as portas dos bancos para os ribeirinhos e também as possibilidades e condições de enfrentamento aos fenômenos da natureza que demanda um processo contínuo de aprimoramento das práticas de manejo adotadas.

Agrava mais ainda a situação, o fato de os órgãos de assistência técnica do estado e do município, assim como os de fomento, continuarem apáticos às possibilidades de perda de parte significativa dos rebanhos dos criadores familiares. Isso somado à redução drástica da produção de queijo que gera renda para centenas de famílias pelo menos seis meses por ano.

Para os criadores, as saídas são simples, muito claras e já estão estruturadas nas políticas de apoio a produção familiar dos governos federal e estadual:  linhas de financiamento público que permitem a reestruturação do sistema com reforma das morambas, manejo das pastagens cultivadas e assistência técnica para implementação dessas ações. Para a produção de queijo é necessário apresentar condições para a regularização da atividade no estado Pará. O reconhecimento recente do queijo do Marajó como artesanal dá esperanças.

Mas se tudo parece tão fácil de se resolver, porque essa situação está cada vez mais ameaçando a criação de bubalinos nos campos naturais de Porto de Moz? Em se concretizando a redução drástica da criação de animais como já vem ocorrendo, as consequências serão barcos descendo os rios em direção à cidade para concluir o loteamento do Baixão do Maturu, área de ocupação desordenada da cidade de Porto de Moz. Já a lotérica, nos térreos do Xingu Palace, vai ter seus clientes aumentados na distribuição do Bolsa Família.